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Crítica | A Pequena Sereia

Enfim, um remake em live-action da Disney que melhora (e muito) o filme original.

Antes de tudo, assemos uma vaca sagrada: “A Pequena Sereia”, o filme animado lá de 1989, não é bom. É importante, sim. Foi o responsável pela retomada da Disney ao sucesso nas bilheterias após quase duas décadas de marasmo. Graças à fórmula dos diretores John Musker e Ron Clements de retornar a uma história clássica e contá-la como elementos de musicais da Broadway, onde números musicais pontuam as viradas do enredo.

E a partir desse sucesso, o estúdio engatou grandes produções, como “A Bela e a Fera”, “Aladdin”, “O Rei Leão”, “Pocahontas”, “Hércules”, “Mulan”, “Tarzan”, dentre outros. Mas não é bom.

Na trama, Ariel, uma sereia princesa de 16 anos, tem fascínio pela terra firme, por humanos e por coisas produzidas por eles. Esse comportamento vai contra as ordens de seu pai, o rei Tritão, que vê na humanidade um bicho perigoso. Ocorre que, após salvar o bonitão príncipe Eric de um afogamento, a menina se apaixona.

Tendo o amor proibido pelo pai, Ariel recorre à bruxa do mar Ursula, que lhe dá uma poção mágica capaz de transformá-la em humana por três dias. A condição, porém, não é das melhores: a princesa precisa conquistar um beijo apaixonado do rapaz antes do prazo final, ou então perderá sua alma para a bruxa. E para dificultar ainda mais a tarefa, Ariel deverá fazer isso sem utilizar sua voz.

Daí em diante, o filme mostra os esforços de Ariel e seu caranguejo, Sebastião, para arrancar a bitoca de Eric. Coisas dão certo, depois dão errado, aí tudo se resolve no final. Envolve músicas bonitas (“Under the Sea”, “Part of Your World” e “Kiss the Girl” se tornaram clássicos do estúdio) e um trabalho rico de animação 2D em cores vibrantes. Mas falta um roteiro mais firme, que construa os personagens e situações de modo que as coisas ocorridas não sejam tão gratuitas.

Agora em live-action, “A Pequena Sereia” conserta alguns desses problemas. O roteiro assinado por Jane Goldman (de “Kick-Ass”, “X-Men: First Class”, “Kingsman”, etc.) e David Magee (“A Vida de Pi” e mais) adiciona camadas aos protagonistas, coadjuvantes, à antagonista, e constrói um mundo um pouco mais palpável, tanto em terra, quanto no fundo do mar.

Imagem: Disney

Se no original Ariel é unidimensional em sua rebeldia adolescente, aqui a princesa vivida por Halle Bailey manifesta desejos, sonhos e incertezas mais compreensíveis. O príncipe Eric (Jonah Hauer-King) adquire um passado que justifica sua personalidade mais aventureira, sua inquietação e vontade de desbravar o mundo.

O modo como o casal têm seu primeiro contato em terra após a transformação da Ariel é mais compreensível, natural, diferente do jeito literal como isso ocorre no original. Assim como a construção da paixão de ambos. A rodagem dedica algumas cenas para que entendamos que algo está nascendo ali. E nelas o filme chega em seu ponto mais alto.

O segmento com eles explorando a ilha, que desemboca na cena do barco de “Kiss the Girl”, é todo muito bonito. Em estética, tom, texto. Na sessão em que assisti ao filme, praticamente lotada, foram várias as gargalhadas no momento em que Ariel, muda, ensina para Eric seu nome.

Convenhamos, “A Pequena Sereia” tem um argumento datado. O formato de uma garota desejar um príncipe encantado e abrir mão de tudo por ele funcionou décadas atrás. Porém, a sociedade mudou, evoluiu (que bom!). E as adaptações aqui reforçam essa mudança. Ainda é uma história “Romeu e Julieta” de amor proibido. Ainda é uma trama que expressa o furor adolescente de ir contra a autoridade paterna. Mas há mais além.

É então uma história sobre uma garota se descobrir, lutar para (literalmente) ter sua voz ouvida, para ter seu ponto de vista respeitado. E o amor que ela conquista vem não só por sua beleza, mas pelo que ela expressa mesmo sem palavras, pela alegria que ela exibe ao enfim interagir no mundo que ela tanto sonhava, pelas afinidades com o cara que ela quer.

Imagem: Disney

O mesmo vale para ele, que não é só o príncipe encantado cobiçável pela aparência e status, mas divide com ela a mesma personalidade, os mesmos desejos de desbravar o desconhecido, até a mesma mania de guardar cacarecos como forma de lembrança. É um amor que faz sentido.

Só é uma pena o roteiro, que é tão azeitado nesse sentido, vacile feio em outros pontos. Não entendo a necessidade de colocarem dois monólogos tão expositivos com a Ursula (Melissa McCarthy) em vez de apresentá-la de uma maneira menos professoral. Também não entendo quase sumirem com o rei Tritão (Javier Bardem) a partir de certo ponto.

A animação em cgi com os animais é boa. Sebastião (Daveed Diggs), Linguado (Jacob Tremblay) e Sabidão (Awkwafina) parecem “realistas” demais numa primeira olhada, mas as interpretações de voz são cartunescas o suficiente para embarcarmos na fantasia. E quando exploram mais da fauna e flora marítima (como no segmento com “Under the Sea”), as cores e movimentos enchem os olhos.

Contudo, algumas partes do filme são escuras demais, dificultam entender o que está acontecendo em tela. É claro que, na vida real, uma tempestade em alto mar no meio da noite ou uma caverna submersa seriam um breu aos olhos, mas isso não é um documentário. Na vida real, sereias e bruxas do mar não existem.

O bom é que o que há de bom supera o que há de ruim. Numa leva recente de adaptações em live-action de clássicos animados da Disney que, ou não acrescentam nada de novo à experiência, ou simplesmente são piores que os longas originais, “A Pequena Sereia” melhora seu material de inspiração.

É um filme de verdade, com uma história que faz sentido. E que tem na Halle Bailey uma figura de princesa perfeita para toda uma nova geração de crianças.

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